Arte e Capital em Busca de Sintonia

August 18th, 2013 § 0 comments

Investimento e Arte
Arte e Capital em Busca de Sintonia
Por João Correia
Marchand e Sócio da Art Options SA

Em novembro de 2009, enquanto a Europa e os Estados Unidos eram assunto por sua decadência econômica, o Brasil era capa da revista britânica The Economist, o mais prestigiado semanário do mundo, com o Cristo Redentor decolando como um foguete. A manchete era: “Brasil takes off” (Brasil decola).

Não faltavam razões na ocasião para tanto. Pouco mais de um ano após o início da crise, o país restaurava seu crescimento, sua geração de emprego e renda antes que qualquer outra nação do mundo. Parecia um país destinado a ser uma potência mundial.

A ilustração e a manchete da capa da revista britânica ilustrariam bem o atual momento do mercado de arte brasileiro e o sentimento de euforia que o cerca.

Enquanto o mercado mundial de arte cresceu uma média de 7% em 2012 (quase o dobro da economia mundial), o brasileiro teve um crescimento de 22,5%. No mesmo ano, o mercado exportou, em valores, 22 milhões de euros, e as obras de artistas nacionais tiveram uma valorização de 15%. A última edição da SP Arte, de acordo com relatório da Secretária da Fazenda do Estado de São Paulo, teve uma arrecadação de R$ 99 milhões, ante R$ 49 milhões do ano anterior. Em leilão, a artista Adriana Varejão teve uma obra arrematada por R$ 1,5 milhão – para um lance inicial de R$ 700 mil. A grande demanda por artistas nacionais é evidente na programação das galerias Londrinas: Fernanda Gomes na Alison Jacques Gallery, Valeska Soares no Max Wigram Gallery; Jac Leiner e Marcius Galan na White Cube.

Momentos como o atual, pelo otimismo que trazem ao setor, são parceiros de seu desenvolvimento. Permitem iniciativas ousadas, profissionalização dos mercados, a sua integração com o exterior e encorajam a inovação, como as ocorridas na última década, em decorrência do crescimento econômico pré-crise de 2008. Além disso, a expansão da internet, que trouxe novas perspectivas ao colecionador aproximando-o do perfil clássico do investidor financeiro.

Uma dessas inovações foi a capitalização em mercado das empresas do setor, como a Sotheby’s, a Artprice, a Artnet e a Noble Investments (junto a oito outras empresas de capital aberto atuantes no mercado de arte totalizando uma capitalização total de cerca de US$3.5 bilhões), e o surgimento dos fundos de arte, como o ArtFonds 21 AG e o Art Partners (totalizando um capital total na faixa de US$1.6 bilhões). No Brasil, há apenas um, o Brazilian Golden Art (BGA), gerido pelo Banco Brasil Plural.

Com o mercado forte, os preços em ascensão, grupos como o Credit Suisse e Bank of America interessados no setor, o desejo dos super ricos em investir em arte, parecia um negócio mais do que certo.

Esse otimismo, no entanto, quando substituído pela euforia, leva a atitudes equivocadas. De 42 fundos rastreados no Ocidente, apenas 15 continuaram ativos e, mesmo assim, por meio de complexas estratégias.

  • O Art Partners, fundo lastreado em obras do pós-guerra e contemporânea, sobretudo de artistas em meio de carreira, pretende lançar uma segunda versão no segundo semestre deste ano.
  • O Art Photography Fund, lançado em 2008, composto por fotografia e obras de arte contemporâneas, apresentou, logo no ano seguinte, 17,7% de retorno aos investidores.
  • O Fine Art Fund I e II, ambos com uma carteira diversificada, que vão de obras clássicas até arte contemporânea, apresentaram retornos pouco vistos em outros segmentos de investimento. Enquanto o I teve um retorno de 34%, o II de 29%.

São diversas as razões para o fracasso da maioria dos fundos de investimento em arte. Passam por problemas de custos subestimados por conta dos quais o fundo não conseguiu tornar-se rentável, como no The Osian’s Art Fund; a ausência de fundos para compor a carteira, caso do fundo ABN AMRO; fraudes e desfalques, como no Fernwood. Além disso, a própria crise econômica, embora não tenha sido declarada como razão para extinção, boa parte dos fundos foram dissolvidos ao longo de 2009.

Entre os fatores comuns, estão a supervalorização de determinadas obras e artistas, a concorrência com galerias e casas de leilão bem capitalizadas. Da mesma forma, o alto preço das obras premium torna imprescindível uma garimpagem bem feita. O histórico de insucessos torna arredios potenciais investidores, como se obras de arte fossem ativos comuns similares a ações e papeis de renda fixa sujeitas a mesma performance.

Obras de arte têm um tempo específico para sua valorização no mercado. Há de ser arrojado e paciente nesse setor e Analisar as perspectivas para além da análise fria dos números ou índices que transpõem os procedimentos de aferição do mercado comum para o mercado de arte. Caso das metodologias Repeat Sales Regression (RSR) e Hedonic Regressions (HR).

A primeira, que abarca índices como o MEI/MOSES, analisa a performance do mercado de revendas, o que, em princípio, limita sua análise, por conta do baixo número de revendas. Impedem uma projeção realista e dificultam a averiguação da performance de curto prazo. Além disso, ignora o fato de que uma obra vai para revenda justamente no momento considerado favorável a ela.

No caso do HR, alternativa mais comum ao RSR, a metodologia mede um grupo de obras de características semelhantes. Suas limitações decorrem do fato de só considerar as vendas em leilão, sendo que metade delas é realizada em galeria. Não considera danos as obras e parte da premissa de que apenas o nome, assinatura, data de execução, dimensão e suporte atuam na flutuação de seus preços. Descarta, também, fatores contextuais da flutuação, relativos a situação em que a transação ocorreu, atributos como procedência e bibliografia.

Do mesmo modo que o otimismo não deve ser transformado em euforia, o fracasso de algumas ações não deve ser dado como uma tragédia. As causas do fechamento devem, antes, ser lidas mais de acordo com as ações e circunstâncias do que como uma razão para a desistência dessa forma de operação. Um modo de trabalhar investimento em arte, de maneira racional, balizando seus desafios e oportunidades (que são muitas) uma vez que o mercado continua forte e em expansão. Essa nova geração de fundos conta com mais ferramentas de diligência e análise, um interesse sem precedentes dos super ricos em diversificar seus portfolios com obras de arte e conhecer melhor o mercado.

Para tanto, torna-se imprescindível que haja uma compreensão da forma de raciocínio e ação de ambos dos lados de forma que o mercado possa evoluir de maneira mais consistente e segura.

Ao investidor, cabe uma visão de longo prazo, a análise crítica das obras e de artistas, a observação de seu desempenho no mercado, o uso das ferramentas de transparência que permitem ver o histórico da obra e aferir sua evolução. Também, aproveitar-se da assimetria de informações no mercado para investir naquilo que revela boas e desconhecidas perspectivas. Ao artistas e profissionais do setor, o entendimento de que o capital bem aplicado – e o interesse dos investidores voltado à valorização do artista – ( suas criações e o conjunto de diferentes obras,)  é o que permite o desenvolvimento do mercado e iniciativas mais ousadas de criatividade.

Isso, de fato, é uma rotina. Desde o Renascimento, a produção de arte necessita da presença de um mecenas. A diferença é que hoje ele está representado pelo detentor do capital na figura do colecionador/ investidor ou pulverizado nos agentes do mercado financeiro. Devemos, então, trabalhar da melhor forma possível com as circunstâncias que temos investindo não só recursos financeiros mas em dispositivos de credibilidade que, a médio longo prazo, deve fortalecer o setor como um todo.

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    Passionate about both art and entrepreneurship, the art dealer João Correia founded two companies: Collezionista, an art advisory firm based in São Paulo, and, I Know What I Like, a contemporary art debate society based in London. He also writes regularly to the media and to this personal blog in English and Portuguese languages.
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    Joao, ao longo da sua carreira, demonstrou um gosto magnífico combinado a perseverança em expandir o escopo dos seus contatos internacionais. Eu confio no julgamento dele em áreas pouco familiares do colecionismo.

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      Entusiasta tanto por arte quanto por empreendedorismo Joao fundou duas empresas. Collezionista, uma consultoria de arte sediada em São Paulo, e, I Know What I Like, uma sociedade de debates de arte contemporânea sediada em Londres. João também escreve regularmente para mídia e para esse blog pessoal em Inglês e Português.