Bienal de Veneza e Curadoria Doméstica

August 18th, 2013 § 0 comments

Colecionismo
Bienal de Veneza e Curadoria Doméstica
Por João Correia,
Marchand e Sócio da Art Options SA

A visita à edição da Bienal de Veneza de 2013 foi uma experiência inovadora do ponto de vista da curadoria, e que pode contribuir à gestão de coleções privadas, permitindo-lhes uma nova forma de autoria, para além da composição de um conjunto de obras de arte.

Intitulada Il Palazzo Encyclopedico, a edição deste ano, com curadoria de Massimiliano Gioni, e participação de 155 artistas de 38 países, foi inspirada no projeto homônimo do artista Marino Auriti, italiano que imigrou para os Estados Unidos na década de 1920. Nos anos 50, ele planejou a criação de um museu de 136 andares (nunca construído) para abrigar todo o conhecimento humano, uma das mais extravagantes utopias da história.

A busca pela totalidade da produção artística e intelectual da humanidade, no contexto da Bienal, acarretou no abandono de conceitos curatoriais tradicionais e na expansão das fronteiras do que pode ser denominado artes plásticas.

Foram relevados horizontes históricos e geográficos e incluídas obras compostas por imagens reais e imaginárias criadas por pensadores cujo método e processo de criação fogem da definição tradicional do que vem a ser um artista plástico. Além das convencionais reuniões, foram incluídos no Palazzo obras de artistas menos conhecidos, de autodidatas, outsiders e criadores de imagens não considerados artistas pelos critérios habituais de curadoria, como Rudolf Steiner, austríaco criador do conceito de antroposofia, e Frieda Harris, criadora do tarô Thot.

Encontramos, ainda, 40 páginas dos manuscritos do livro Vermelho de Carl Jung, cartas de tarô criadas pelo artista e ocultista Britânico Aleister Crowley e bandeiras de práticas de Voodoo haitiano em companhia da obra que a fotógrafa Cindy Sherman criou para o evento: uma casa de bonecas que agrega criações de artistas desconhecidos, prisioneiros e grandes nomes como Paul McCarthy e Rosemarie Trockel, figura eminente do movimento de arte contemporânea da segunda metade do século 20.

Trazer o conceito e a ousadia da curadoria de Gioni para a formação das coleções privadas assinala a gestão do próprio patrimônio artístico para além de modismos, eventos mercadológicos ou ideologias, por meio do rompimento de barreiras históricas, geográficas e culturais.

Além disso, amplia as possibilidades de autoria e individualidade do colecionador e permite ao mesmo, a partir do estabelecimento de uma identidade para sua coleção, liberdade total de composição, podendo evoluir da maneira que bem entendesse dentro do conceito proposto, misturando obras de grandes artistas a criações de rua, por exemplo.

Aos colecionadores brasileiros, a visão trazida pela Bienal de Veneza, além de dar credibilidade à diversificação das coleções, permite o melhor aproveitamento de feiras como a SP Arte e Arte Rio, que agregam obras de galerias internacionais até pouco tempo fora de alcance, e de aplicativos que permitem compras em acervos de eventos internacionais, como a Basel, ou mesmo feiras virtuais, como a VIP Art Fair. Isso, claro, partindo sempre de um embasamento teórico e crítico e de uma identidade para a coleção. (Ao chegar de Veneza e olhar para minha coleção pessoal, fiquei ansioso para incrementá-la seguindo princípios mais amplos como os utilizados na Bienal.)

Em entrevista à revista americana Frieze, uma das mais respeitadas publicações de arte e cultura, Gioni afirmou que “no princípio dos anos 90” “a idéia de site specificity era chave para as bienais”. Com o tempo, nas palavras dele, “a bienal se tornou uma espécie de internet do mundo da arte – um festival genérico de coisas do mundo afora.” Sentindo o esgotamento desse modelo de curadoria, Gioni decidiu ousar e transpor os limites. O resultado o agradou. “A integração heterogênea de um material histórico se provou interessante”, afirmou à publicação.

Grandes eventos de arte, como as bienais e a Documenta de Kassel, tradicionalmente resultam em iluminar a cena artística com máxima sensibilidade. Exigem conhecimento, contato com a atualidade e seu caráter predominante por parte da curadoria. Em escala mundial, repercutem não apenas no setor de artes plásticas, mas também nos segmentos que subsidiam o mercado de arte.

A última edição da Bienal de Veneza, em caráter histórico, haverá de ter contribuído para realinhar a dimensão do colecionismo doméstico e introduzir a prerrogativa inusitada de indicar ao colecionador a possibilidade de gerir seu patrimônio, em âmbito curatorial, a partir de sua própria identidade.

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    Passionate about both art and entrepreneurship, the art dealer João Correia founded two companies: Collezionista, an art advisory firm based in São Paulo, and, I Know What I Like, a contemporary art debate society based in London. He also writes regularly to the media and to this personal blog in English and Portuguese languages.
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      Entusiasta tanto por arte quanto por empreendedorismo Joao fundou duas empresas. Collezionista, uma consultoria de arte sediada em São Paulo, e, I Know What I Like, uma sociedade de debates de arte contemporânea sediada em Londres. João também escreve regularmente para mídia e para esse blog pessoal em Inglês e Português.