Jantar em Veneza

August 18th, 2013 § 0 comments

Jantar em Veneza
Na semana de abertura da 55a Biennale
Por João Correia
Marchand e Sócio Fundador da Art Options SA

Na semana de abertura da Bienal de Veneza, uma intensa atividade paralela arrebata os visitantes. Dezenas de jantares ao dia, festas, vernissages e conferências de imprensa são atrativos tão grandes quanto a própria mostra. E, para um ousado e curioso marchand em constante busca por arte e seus bastidores empresariais, eu só tinha um grande inquietação: entre tantas opções, errar na aposta e terminar cercado por pensamentos e experiências inúteis. Cada minuto deveria ser profissionalmente bem aproveitado; cada interação, para valer a pena, deveria abrir meu olhar. Nessa jornada, fatos inusitados ampliam a magia e excitação natural dos improvisos mas, também, o risco de cair num abismo sem saber se ele será vazio ou profundo.

A caminho de um evento no terraço do Hotel Bauer, conheço um marchand francês, Akim Monet, acompanhado por dois amigos: um artista árabe, a caráter, de Ghutra e seu irmão, em trajes mais casuais. A proposta de sair da fila – sim, estávamos em uma fila – foi tentadora. Diante de comitê tão excêntrico e promissor, estaria eu me afastando ou aproximando da qualidade de pensamentos que buscava? A conversa flui para a obra desse controverso artista-soldado, Abdulnasser Gharem, até então fora do meu conhecimento. Me parece o sinal de conteúdo que eu precisava: aceito o convite e seguimos para o bar do Hotel Mônaco. A caminho, aprendo as motivações que levaram esse expoente da arte conceitual do Oriente Médio a fundar, em 2003, um coletivo de artistas militantes pela paz, Edge of Arábia.

Durante a conversa, Abdulnasser insiste na tese segundo a qual os artistas tem o potencial para e a responsabilidade de se tornar negociadores públicos dos problemas de seus povos (pensamento recentemente manifestado em entrevista ao The Art Newspaper, Julho 2013). Suas idéias chamam a atenção. Seus preços, também. Com reconhecimento global, o preço de algumas de suas obras ultrapassam US$ 800,000 (Message/Messenger), valor que fora dignamente revertido para o Edge of Arábia através de doação. Sim, he walks his talk. A obra Message / Messenger é uma cúpula brilhante referindo-se a sagrada Cúpula da Rocha (nome atribuído à Mesquita de Omar situada no Monte do Templo, um dos sítios mais sagrados do Islã, na Cidade Velha de Jerusalém) equilibrada precariamente sobre uma pequena pomba – emblema clássico da paz – em risco de ser presa sob o símbolo de todo o fervor religioso e tensão na região.

O clube de fãs desse artista-provocador inclui, além da família real saudita, Akim, meu novo amigo e consultor estratégico do artista; por dez anos colaborador de Jan Krugier, marchand polonês sobrevivente de Auschwitz que teve direitos exclusivos sobre a vasta coleção de Marina Picasso, neta do artista, e acreditado por muitos como um dos principais estrategistas do mercado de Pablo Picasso. Enquanto falava, Marci, mãe de Akim, chega com um belo e jovem companion. Vivendo entre Suíça (no Inverno) e Mônaco (no Verão), ela se apresenta como organizadora das primeiras exposições de Frank Stella nos anos 60. As descrições das obras de sua coleção me permitem conectar narrativas antes desconexas; seus comentários são dignos de quem tem perspectiva e conhecimento empíricos, uma ou duas gerações além dos demais presentes. Gôndolas e cruzeiros passam ao fundo no Grand Canal. Perto de nós, um barco assinado pelo artista francês Xavier Veilhan manobra para estacionar. Pressinto que irei testemunhar momentos marcantes dos bastidores e do empreendedorismo visionário que acompanha produções artísticas do mais alto nível.

Mesmo sem muitas informações sobre o próximo destino, cancelo meu compromisso seguinte e continuo a noite com meu grupo de estranhos notáveis: um jantar numa ilha vizinha entra em pauta. E, eu, diante de lições práticas de arte e vida, de mercado, humor e, sobretudo, improviso. Optamos pelo jantar e, ao levantar da mesa do bar do Hotel Mônaco, noto uma frase escrita em um bilhete deixado na mesa ao lado: “- os ventos favorecem aquele que sabe aonde vai ”. O barco-táxi segue para Fondazione Cini, Isola Di San Giorgio (Ilha de São Jorge). Sentindo a brisa, meio desligado do tempo, confiro a data: 29 de Maio de 2013, semana de lançamento dessa Bienal de Veneza curada com grande impacto por Maximiliano Gioni com sua proposta Il Palazzo Enciclopedico. Chegamos ao jantar organizado por Nathalie Obadia, galerista francesa da artista Joana Vasconcelos, representante lusa na mostra. A obra, uma intervenção feita em uma balsa transformada num pavilhão flutuante. Entre os presentes, colecionadores, marchands, músicos, jornalistas e o prefeito de Lisboa. O menu especial para a ocasião, criado por um chef Michelin, fora honorificamente batizado com o nome da artista.

O homem que pode dominar uma mesa de jantar em Londres, pode dominar o mundo, disse Oscar Wilde uma vez (The man who can dominate a London dinner-table can dominate the world). Agora, isso parece valer também para Veneza. Com um discurso confiante ouvido por todos os presentes, Joana revela clareza de propósito e autoconfiança retórica pouco comuns entre artistas. Ela saúda os presentes e expressa sua gratidão ao leal time de 30 assistentes com quem trabalha em seu atelier. Agradece, também, o colecionador que financiou a antiga balsa portuguesa agora convertida em pavilhão-obra-de-arte flutuante. Estamos numa era grandiosa não só de contribuições artísticas, e empreendedorismo visionário, mas também de atos proporcionais de mecenato e confiança. Ela encerra o discurso agradecendo a todos, em particular seus compradores dos quais espera continuidade em colecionar sua obra. Seus preços recordes atingem, hoje, a casa de US$750,000 (Estiletos, em aço polido). Abdulnasser levanta-se para cumprimentá-la, notado por boa parte dos convidados além do time de fotógrafos.

De volta ao nosso pequeno comitê, a conversa deriva por outras águas. O artista-soldado argumenta, junto a Akim, a favor de manter o radicalismo político de sua obra apesar da resistência local. Defende, também, seu propósito de manter residência no país apesar dos riscos de represália. Ouvindo suas palavras, a distinta Marci aconselha: se o objetivo for continuar fazendo arte política, em se tratando de Arábia Saudita, é mais prudente fazê-lo de fora do país. E ela não perde a elegância ao bancar seu discurso com uma oferta de apoio financeiro: o uso, por sua conta, de um ateliê no sul da França, pelo período de dois anos. E estende a mão para selar o acordo. She walks her talk. Ambos apresentam solene senso de compromisso: de um lado, a integridade conceitual da obra; do outro, a necessidade de mecenato para a viabilização dessa obra. Uma cena digna de outros marcantes atos de mecenato da história. No entanto, o artista recusa a oferta.

O garçom traz mais uma garrafa de vinho enquanto Abdulnasser defende a proposta de que seu novo projeto, a Amen Art Foundation, deverá ser sediado em Riyadh, capital Saudita. Ele acredita que a transformação deve ocorrer onde a polêmica apresenta maior densidade; onde as forças políticas e religiosas mais conservadoras estão atuando. Julgando o vinho pelo paladar, ignoro o rótulo, tão pomposo quanto desconhecido para alguém, assim como eu, um não iniciado. Akim aproveita a deixa para lançar um novo assunto. Seu conhecimento das tendências e as forças subterrâneas que as movem são matéria indispensável à singular articulação de seus pensamentos. Sua tese é a de que a obra de Abdulnasser exercerá papel fundamental na gradual integração da produção artística do mundo árabe à história da arte ocidental. Curiosamente, a origem judaico-cristã que a região tem em comum com o ocidente virá a transparecer no desenvolvimento artístico ao longo das próximas décadas. Uma variedade de referências históricas combinadas de forma tão lógica quanto inusitada fixam minha atenção, até vir à mesa a sugestão de pegar o próximo barco-táxi de volta à San Marco. Marci parece operar numa voltagem acima da dos demais. Mantém sua vivacidade mas pretende se recolher. O companion a ajuda, e, apesar de discreto, sua aparência não passa desapercebida.

Na manhã seguinte, noto que já entendo o mapa de Veneza; também, alguns novos artistas recém descobertos e, maiores sutilezas do funcionamento do mercado de arte. Sigo, turbinado pelas conversas da noite anterior, para a vernissage de lançamento da exposição no pavilhão brasileiro que tem por curador Luiz Peres Oramas. Um making off que eu houvera acompanhado de perto nas semanas anteriores, e que, agora, passara a ver com outros olhos. Os movimentos estratégicos necessários para capilarizar a visibilidade dos nossos artistas se esclareciam na minha reflexão. Nada como o sentimento de que o tempo, minuto a minuto, tenha acrescentado perspectiva a vida. Me permitiu aprofundar nas minhas pesquisas e universo íntimo. A missão de ontem fora cumprida. Um novo e intenso dia de garimpo se inicia.

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    Passionate about both art and entrepreneurship, the art dealer João Correia founded two companies: Collezionista, an art advisory firm based in São Paulo, and, I Know What I Like, a contemporary art debate society based in London. He also writes regularly to the media and to this personal blog in English and Portuguese languages.
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      Entusiasta tanto por arte quanto por empreendedorismo Joao fundou duas empresas. Collezionista, uma consultoria de arte sediada em São Paulo, e, I Know What I Like, uma sociedade de debates de arte contemporânea sediada em Londres. João também escreve regularmente para mídia e para esse blog pessoal em Inglês e Português.