Mercado de Arte, Confiança e Transparência

August 18th, 2013 § 0 comments

Mercardo de Arte
Mercado de Arte, Confiança e Transparência
Por João Correia,
Marchand e Sócio da Art Options SA

No mundo da arte a falta de transparência, como uma obscuridade be-nigna, é tão determinante para o seu caráter quanto as escolas surgidas desde o Renascimento. Foi o mistério que trouxe, para além das análi-ses técnicas e históricas, o caráter emblemático e reflexivo às obras, deu a elas sua beleza e poder de se-dução constantes e carregou a humanidade por percursos turbulentos e decisivos. Em contrapartida, foi o que deu ao mercado a natureza por vezes sombria, sobrecarregada de incertezas e o estigmatizou como um setor no qual lavagem de dinheiro e comércio de falsificações são recor-rentes.

As ferramentas digitais trouxeram ao público a forma de funcionamento de governos e grandes instituições financeiras revelando as perversidades que haviam nas relações baseadas somente em confiança, sobretudo quando um dos lados se valia para tirar proveitos próprios. Poderia ser dito que uma das consequências desse vício foi a crise de 2008, entre outras causas, fruto das manipulações de grupos financeiros com as economias pessoais, o que fez surgir a demanda por maior regulamenta-ção e pontualidade no trato com o dinheiro privado.

No campo das artes, processo seme-lhante de cobrança por transparência ocorreu nos Estados Unidos e na Eu-ropa pós-crise tendo em vista a ne-cessidade dos investidores em encontrar a melhor forma de aplicar seus recursos para atender interesses tanto em arte quanto financeiros. Ferramentas virtuais como os sites Art Price e Mutual Art, por exemplo, permitem a verificação do histórico de compra e venda das obras e o legado dos artistas que as criaram.

No caso brasileiro, a demanda por transparência, desde o final da déca-da passada, se deu por outros fatores além da exigência de clareza no mercado internacional e a influência da internet. Nos últimos anos, esse mercado doméstico iniciou um processo de formalização com o registro de empresas por parte dos artistas, transpôs fronteiras internacionais e atingiu o faturamento anual de US$ 590 milhões (TEFAF Art Market Report 2013). Há projeções de que o crescimento do mercado brasileiro possa, sob condições ideais, chegar a US$ 2,46 bilhões, 4.1 vezes maior, portanto. (Projeção hipotética basea-da na recomendação de diversificação de portfólio de alguns analistas a dados do World Wealth Report 2013 Capgemini).

Em virtude do caráter específico onde o mistério é parte do negócio e, a quebra de paradigmas, a razão de seu desenvolvimento, devemos ponderar a questão do aumento e da necessi-dade da transparência no setor levando-se em conta os riscos de perda do valor intrínseco da obra.

A confiança, em contrapartida, é a norma tradicional de relação no mercado de arte por conta do próprio caráter personalista dos negócios. Sua influência é favorecida pela relativa ausência de transparência que preserva a vitalidade do mistério natural do produto em si; dá, à arte, o seu caráter subtextual, reflexivo, permitindo com que seja uma forma de expressão e linguagem. Também, que a diferencia de outros objetos de luxo como, por exemplo, carros bem desenhados, móveis e roupas de alta-costura.

A assimetria de informações, também base da confiança, gera oportunidades de bons lances em leilões, grandes revelações e descobertas. Mas, numa relação em que a confiança pode ser utilizada como um artifício para ganhos fáceis, calcados em mentiras ou omissões, super co-tações equivocadas se concretizam frequentemente roubando credibilidade e segurança ao setor.

Além dos danos causados ao colecionador, uma relação baseada ape-nas em confiança estimula a desinformação. Abre espaço para fraudes, falsificações, maus investimentos. Coloca o mercado em uma situação de fragilidade com a criação de “bolhas”, onde o alto valor sem lastro de uma obra pode levar a desconfiança de outras peças, artistas e mesmo instituições.

A transparência, no caso das artes, deve ser analisada dentro de seu contexto. Não se pode confundir o mercado de arte com o de finanças ou mesmo o setor público, locais onde transparência é fator básico para a boa prestação de serviços, a satisfação, o controle e o estabelecimento de uma relação de confiabilidade entre o cliente/cidadão.

A transparência, no mercado de arte, é um fator que, além de proteger o colecionador dos citados riscos, favorece a diligência do comprador, permite a ele saber a procedência, conhecer a condição de mercado da obra, em especial a sua situação de liquidez. Estimula a formalização do setor e cria condições para a competição externa. Uma relação predomi-nantemente marcada pela confiança, exclui essas vantagens.

Porém, como se trata de uma atividade em que o simbólico é parte no-bre e diferencial do seu valor, um cenário de completa transparência, num momento em que não faltam recursos para aquisição e produção de arte, corre-se o risco de esvaziar sua essência fazendo dela apenas um produto comum. E, o colecionador, um consumidor indiferenciado tiran-do a hierarquia que há entre as obras e seus destinos (residências, museus ou bancos). Pode fazer do artista um repetidor cujo valor, então, passa a ser cotado mais pela quantidade que na própria qualidade em si.

Ao longo do último século, viu-se um expressivo aumento na quantida-de de obras produzidas por artistas plásticos. Picasso, no início do século 20, produziu, segundo algumas estimativas, 50.000 obras. Andy Warhol, na segunda metade, batizou seu atelier de Factory e aprovava por telefone a produção comercial de centenas de obras. Hoje, acredita-se que a produção de alguns artistas chegue a cerca de meio milhão, o que passa a ser astutamente assimi-lado e aceito como parte do conceito do discurso do artista. É interessante assinalar que, o que fora, no passado, descrito como mundo da arte, passou a ser designado como mercado de arte e, hoje em dia, alguns experts se referem ao ramo como indústria da arte. O próprio fórum cujo tema deu origem à esse artigo, no começo de maio, chamava-se Art Industry Forum.

Um exemplo dos riscos e danos dessa relação pura de consumo, conver-tendo o valor apenas em algarismos, é o que ocorreu no cinema de Hollywood. Inicialmente, a indústria do cinema americano estabeleceu-se com uma linguagem que aliava arte e apelo de público, sobretudo por meio do trabalho de diretores como Alfred Hitchcock e Howard Hawks. Ao transformar os filmes apenas em produtos, fez com que perdessem qualidade, se tornassem repetitivos e a indústria se escorasse em poucos títulos para sobreviver. Grandes diretores e produtores, como George Lucas, Martin Scorcese e Steven Spielberg, lamentaram a situação econômica da indústria e vem migrando para a TV como forma de expressão.

No mercado de arte, para além do esvaziamento simbólico da obra, a completa transparência pode levar a criação de situações indesejáveis como, da mesma forma, a ser calcada apenas na confiança. A completa transparência leva a especulação de obras com potencial de mercado a ponto de tornar seus preços desproporcionais a seus respectivos lastros. Igualmente, a saturação de feiras e galerias pode resultar numa demanda por massificação descontrolada, a repetição de obras e a redundância no elenco de artistas. Uma situação de volatilidade com picos de euforia e quedas bruscas (depressões), como ocorre no mercado financeiro em tempos de crise.

O equilíbrio entre confiança e trans-parência é crítico e a sentença mais segura é a de que são valores que devem se complementar e, não, se substituir ou se excluir. Minha avali-ação final, quanto ao fórum de Maio, identificou uma acentuada preferência dos palestrantes pelo fator Confiança, ou confiabilidade, proporcio-nalmente, sobre Transparência. Cer-tamente, é objeto de novos estudos e debate. Os recursos de ajuste em torno de variáveis tão dinâmicas são sensíveis e os meios para sua aplicação igualmente críticos e determinantes. Qualificação, por exemplo, tanto do público quanto dos operadores pode criar uma cadeia crítica saudável contra supervalorizações oportunísticas. Acesso à informação de qualidade, como já referido e, da mesma forma, tende a implementar maiores e melhores critérios regula-dores. O uso das ferramentas de informação disponíveis para o mercado, da mesma forma, permite ao colecionador fundamentar suas decisões e alocar a confiabilidade necessária à expansão segura do seu patrimônio.

A qualificação passa também por um ponto importante a ser lembrado. Ao longo da história houve sempre momentos de inovação, revoluções e rupturas que proporcionaram avanços, a criação de novas escolas e padrões estéticos. É importante que essa consciência permaneça viva e presente em marchands, colecionadores e investidores. Afinal, a boa arte é feita de uma arte melhor.


João Correia, marchand e sócio da Art Options SA., palestrou no fórum sobre Confiança e Transparência no Mercado de Arte, organizado pelo Sotheby’s Institute of Art, em Londres, Maio de 2013.

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    Passionate about both art and entrepreneurship, the art dealer João Correia founded two companies: Collezionista, an art advisory firm based in São Paulo, and, I Know What I Like, a contemporary art debate society based in London. He also writes regularly to the media and to this personal blog in English and Portuguese languages.
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    Joao, ao longo da sua carreira, demonstrou um gosto magnífico combinado a perseverança em expandir o escopo dos seus contatos internacionais. Eu confio no julgamento dele em áreas pouco familiares do colecionismo.

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      Entusiasta tanto por arte quanto por empreendedorismo Joao fundou duas empresas. Collezionista, uma consultoria de arte sediada em São Paulo, e, I Know What I Like, uma sociedade de debates de arte contemporânea sediada em Londres. João também escreve regularmente para mídia e para esse blog pessoal em Inglês e Português.