O Papel das Galerias Médias na Era da Mega Galeria

August 18th, 2013 § 0 comments

Galerias e Posicionamento
O Papel das Galerias Médias na Era da Mega Galeria
Por João Correia
Marchand e Sócio Fundador da Art Options

 

A abertura da exposição do Takashi Murakami na Gagosian Gallery de Britannia Street em Londres foi uma mega experiência. A rede de galerias e seu faturamento são mega. A filial é mega. O artista e a produção são mega. O time de fotógrafos a sua volta, a fila de pessoas o assediando, o tamanho do falo dourado e a vagina em exposição, os preços: tudo mega! Também o time de vendedores da galeria, o número de seguranças, sua atenção e amabilidade. Mega microscópica. Me sentia exposto a cada passo, movimento e intenção. Nesse cenário, eu não sei como outros visitantes se sentiam, mas eu me sentia micro, ou no mínimo, intimidado, e pequeno para o meu corpo.

E, aparentemente, eu não sou o único marchand a questionar seu papel e escala. Os galeristas de porte médio tem se perguntado como se redefinir diante do advento das mega galerias. O assunto foi tema de uma das sessões da série Salon na última edição da feira Art Basel, no dia 13 de Junho. Presentes, dois galeristas que, por sua vez, também fundaram feiras: Elizabeth Dee, da Elizabeth Dee Gallery e da feira The Independent em Nova Yorque; e Edward Winkleman, da Winkleman Gallery e da feira Moving Image Art Fair, presente tanto em Nova Yorque como em Londres. Como moderador, Josh Baer, consultor de arte e editor do Baer Faxt, Nova Yorque.

A discussão começou com uma definição: nesse momento de transição e reposicionamento, o que é uma mega galeria? Se você está se perguntando se é ou se está numa mega galeria, é porque não se trata de uma. Se tornou óbvio pois a diferença entre as mega galerias e as demais foi acentuada pelo momento econômico que causou uma polarização estratégica entre elas. As mega galerias optaram por mais espaços e maiores equipes. Se tornaram corporações multinacionais. Em contrapartida, a evolução das médias se deu por colaboração mútua, programação experimental e maior representatividade do perfil da galeria. Também, a fundação de feiras (como no caso dos dois palestrantes presentes) e projetos não lucrativos como a X Initiative.

Outro fator, é a atual cultura de eventos globais que, contando com bienais, leilões e feiras, se tornou um dos motores econômicos que estão redesenhando as dinâmicas no setor. A pressão aumentou para todos. Galerias médias já perderam artistas, público e vendas para as mega galerias. Mega galerias, por outro lado, estão sob pressão pela manutenção da macro escala de suas operações. De fato, manter uma programação dinâmica e de alta qualidade, em uma dezena de espaços de área digna de um centro cultural, é uma tarefa colossal. Diretores, produtores, time de vendas, toda essa infraestrutura tem de ser mantida e a solução leva ao assentamento de uma hierarquia vertical e corporativa. Fica a pergunta: Como será o mundo da arte em 10 anos?

Muitas galerias fecharam ou diminuíram suas operações nos últimos 5 anos em consequência da crise econômica. Alguns entusiastas das novas tecnologias, e menos familiares com o funcionamento do mercado de arte, levantam a questão: nós, afinal, realmente precisamos de galerias? Muitos galeristas já se tornaram agentes e produtores. Museus e casas de leilão são necessários mas, galerias? Alguns acreditam que, no saldo final, a diferença de faturamento em favor de um galerista, em contraste com a de um consultor, não compensa. Acreditam que é possível, para um marchand, obter os mesmos resultados sem um espaço fixo e fazendo bom uso da tecnologia. Historiadores explicam que o modelo do Cubo Branco de exposição de obras é relativamente recente – aproximadamente 100 anos. Curadores e colecionadores, cada vez mais, conduzem suas reuniões com os galeristas durante as feiras. “Planejei, durante uma feira e, em quatro horas, toda uma retrospectiva de museu com um curador. Isso seria impensável anos atrás. Estamos todos com menos tempo e sob grande pressão” – comentou Elizabeth Dee.

Ainda assim, os entusiastas das galerias médias afirmam que continuam sendo um laboratório importante para os artistas. Onde eles podem ver e mostrar arte para outros artistas. Não ter esse espaço para experimentar poderia afetar o desenvolvimento de produções inteiras. Além disso, a galeria média tem outras atrativos: mostram a obra no seu contexto, proporcionam um palco criativo para discussão, mantém a possibilidade de relevar o tempo na apreciação das obras (impossível nas feiras e museus hoje em dia) e a tranquilidade para estar propriamente a “sós” com a obra. A galeria é o espaço próprio do artista que pode usá-lo com maior intimidade e autonomia no diálogo com os outros artistas no amadurecimento de seu discurso. Ambos, artistas e visitantes, podem ter uma relação particular com a obra.

Com todos esses atrativos, o galerista está muito solicitado. Tem de fazer mais com menos. Muito tempo é consumido em eventos e processamento de informações da mídia. Curadores esperam vê-los em todas as feiras que atendem. E a solicitação por parte dos seus dois clientes, artista e colecionador, só aumenta. Cada um com suas demandas: o que o colecionador quer do galerista é acesso à própria conveniência; do seu lado, o artista procura maior tempo no atelier, resultado de vendas e oportunidades de acesso à instituições. No passado, o galerista tinha de fazer uma transparência da obra, pensar se os altos custos de envio valeriam a pena, além de ter que aguardar o recebimento para dar sequência às negociações. Se isso fosse feito com 5-10 colecionadores poderia ser considerado uma boa visibilidade. Hoje, se o galerista não apresentar uma longa lista de potenciais compradores, o artista achará que não está sendo suficientemente bem trabalhado. Colecionadores, por sua vez, estão cada vez com menos espaço para a contemplação de seus acervos.

A relação artista – galerista é o coração e a alma do mercado de arte. No entanto, o tempo no studio tem sido cada vez mais escasso. Skype permite o planejamento de uma exposição inteira remotamente e o encontro com o artista acontece só na abertura. O galerista termina por ser um proxy do artista sem ter ficado tempo suficiente junto a ele, no studio, o que é essencial à reflexão e a crítica. E, por isso, artistas dizem que o modelo atual não está funcionando, principalmente quanto à complexidade de se inserir profissional e artisticamente na cena. O ideal da galeria de médio porte é oferecer um trabalho baseado em relacionamento dando autonomia ao artista. Liberdade, menor pressão, parceria, intimidade e apoio pessoal ainda são atrativos das galerias médias e pequenas. E, por essa perspectiva, elas nunca serão extintas ou, do contrário, arriscariam a transformação total da cena como a conhecemos. E, não é apenas entre produção e promoção do produto artístico como o conhecemos. Galerias de médio porte bem sucedidas, quando tem a opção de abrir novas filiais e se tornar galerias maiores, preferem manter-se alinhadas à identidade do seu fundador e investir os recursos em desenvolver um ponto de vista mais firme através da sua programação.

Mas apesar das distinções entre mega, médias e pequenas, conflitos são recorrentes: como você se sentiria se uma mega galeria tentasse tirar um de seus artistas? – perguntou Edward. Estamos lidando com essa questão logo no início do relacionamento com um novo artista – explica Elizabeth. A prática, agora, é fazer contratos quando, antes, um relacionamento informal era a norma. Considera-se também que, se o relacionamento não for de longo prazo, não é possível investir. Para tanto, é necessário que haja uma parceira e, sem isso, o caráter experimental de uma obra pode ficar comprometido. Relações de longo prazo permitem o risco de exposições que não vendam ou de criações ousadas, de aceitação mercadológica incerta. Idealmente, os galeristas à moda tradicional querem participar de cada fase da produção do artista. Da construção das primeiras séries à um mercado sólido que leve a obra a ser vendida em leilão por múltiplos do seu valor inicial. Essa trajetória requer um compromisso de longo prazo, o que as mega galerias, muitas vezes, tentam interromper com ofertas de bônus e maior visibilidade.

Neste contexto, a cena de galerias novas e pequenas motivadas pelo romance de ser um galerista está em plena atividade. Se o posicionamento estratégico das galerias médias, das mega galerias e seus respectivos relacionamentos com os artistas está sendo reconsiderado, a solidariedade entre galerias de todos os perfis demonstrada, por exemplo, durante o furacão Sandy, em Nova York, evidenciou o humanismo entre os vários participantes do setor independente da competição comercial entre si.

A busca por integridade artística e excelência na programação por parte das galerias médias é uma reafirmação da proposta que as originou. Além disso, uma oportunidade de calibre da identidade institucional e é, portanto, um reinvestimento nobre da prosperidade alcançada. Um progresso evolutivo, talvez, menos óbvio, mas digno. Esperamos que a evolução das mega galerias as faça ter de competir o suficiente para buscar se diferenciar pelo humanismo, qualidades ainda típicas dos menores operadores. Visitantes já habituados a vernissages, ou comparecendo pela primeira vez, não deveriam se sentir intimidados ou excessivamente monitorados por seguranças e câmeras CCTV. Seria uma evolução do interesse de todos. Esse abismo nas relações humanas, sobretudo num setor como o de artes visuais, não pode ser bem justificado e tem de acabar nos próximos capítulos da curva evolutiva. O respeito humano será sempre um grande diferencial, competitivo e sustentável, no setor das artes e fora dele.

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      Entusiasta tanto por arte quanto por empreendedorismo Joao fundou duas empresas. Collezionista, uma consultoria de arte sediada em São Paulo, e, I Know What I Like, uma sociedade de debates de arte contemporânea sediada em Londres. João também escreve regularmente para mídia e para esse blog pessoal em Inglês e Português.