Sem juízo, sem critério, com certezas

February 4th, 2014 § 0 comments

Sem juízo, sem critério, com certezas
– artigo publicado na revista Art Democracy de Setembro de 2014

Art Dem #3

“Estamos cansados de ser ‘espectadores’. Queremos percursos. Queremos experiências. Queremos estar dentro do vivido. Queremos saber onde começa a ficção e termina a realidade e… vice-versa!” postou no Facebook dia 21/01/2014, Sheila Leirner, crítica de arte, autora e curadora de duas bienais.
Assinando como Chela Leira, personagem imaginária criada pela crítica, ela desabafa compartilhando o trecho de um manifesto, também imaginário, batizado de “Arte como medida, seu tempo e seu lugar nos dias de hoje”.

Com graça e humor característicos, mas muita seriedade, Sheila chama atenção para uma problemática que se agrava diariamente. Com 520,000 artistas listados (ArtPrice) e mais de 300 eventos anuais de grande porte entre feiras e bienais, o discernimento está em baixa. Os críticos de arte foram eleitos os profissionais das artes com menos poder no ranking anual das 20 pessoas menos poderosas do mundo da arte.

Joao_Art Democracy_October 2014

Publicado pelo arrojado blog Nova Iorquino Hyperallergic em novembro de 2013, The 20 Most Powerless People in the Art World é um irônico e crítico contraponto a última edição do Power 100 – uma lista ranqueada das pessoas mais poderosas do mundo da arte contemporânea – publicado pela revista Inglesa Art Review, que, segundo Hyperallergic, não incluiu nenhum crítico no seu ranking.

Numa era de tanta produção, eventos e comunicação o que menos temos é discernimento, julgamento, critério, crítica. Preocupante? Certamente.

Quais serão as consequências desse fenômeno na educação do público na nossa geração? O que representa na formação de um indivíduo (cultural, ou qualquer outra), a absorção de influências sem referências do que é bom e o que não é, do que é relevante, ou não? Teríamos nós, banhados em arte por todos os lados, perdido a cultura da análise criteriosa, do pensamento independente, da avaliação pessoal e bem embasada?

A história mostra que a cada movimento, a cada geração, somente 6 ou 7 artistas sobrevivem como relevantes a seus tempos. Ou seja, um porcentagem superior a 99% de tudo o que está sendo visto e defendido pela não-crítica de hoje será esquecido. Ou, virará nota de rodapé nos livros de história da arte do futuro. Qualquer pessoa – iniciada nas artes ou não – conhece a severidade do tempo. No entanto… os críticos continuam sem poder e, sem voz.

”A mídia não inclui mais críticos de arte. O que importam, no final das contas, polegares para cima, ou para baixo quando os ganhadores são pré selecionados antes dos votos críticos chegarem? Nessa economia, parece que o trabalho do crítico é divulgar nomes e contribuir para a fama deles. O jargão acadêmico se tornou uma nova forma de “papo de vendedor” – diz Holland Cotter, critico norte americano ganhador do Premio Pullitzer de criticismo em 2009 em artigo escrito para o New York Times dia 17/01/2014.

“Não há dúvida que nós precisamos – a arte precisa – de um novo fluxo de comentadores que não confunde atitude com idéias.” – continua Holland Cotter.

Lendo isso… a sonolência da nossa realidade grita: teremos mais um ano com centenas de eventos, de livros publicados, de artigos na mídia, sem que ninguém fale o que pensa com medo do mercado ou do politicamente correto? Aonde isso vai levar? Não seria essa atividade “sem poder” o esquecido antídoto para um mercado descrito por Christian Viveros-Fauné, em 01/01/2014, no Village Voice como “um grande e corrupto cassino, um lugar onde preços pré fixados e manipulação se tornaram tão populares quando os empréstimos alavancados de 2007”?

Com tudo isso, numa geração praticamente sem voz, sem juízo e sem critério, a esperança continua. “A internet é uma alternativa ambiciosa e bem vinda” comenta Holland.
De fato, blogazines como Hyperallergic, Art F City e Bad at Sports estão ao acesso de todos nós alertando para o essencial (ou a falta dele) combinando criticismo isento, reportagem, ativismo político e fofoca quase que 24 horas por dia.

Nas mídias sociais, profissionais e entusiastas das artes tem oportunidade de expressar uma opinião independente assim como, Sheila, que continua a agraciar seus seguidores no Facebook com comentários que esperamos continuem sendo veementes e contundentes por um bom tempo.

E, diante de todas essas vozes, resta a nós consultores tentar discernir quais terão ressonância histórica, um esforço constante para aqueles que, como nós, estão empenhados na disseminação da consciência entre seu público seja para formação de coleções visionárias ou excelentes investimentos de longo prazo.

João Correia

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    Passionate about both art and entrepreneurship, the art dealer João Correia founded two companies: Collezionista, an art advisory firm based in São Paulo, and, I Know What I Like, a contemporary art debate society based in London. He also writes regularly to the media and to this personal blog in English and Portuguese languages.
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      Entusiasta tanto por arte quanto por empreendedorismo Joao fundou duas empresas. Collezionista, uma consultoria de arte sediada em São Paulo, e, I Know What I Like, uma sociedade de debates de arte contemporânea sediada em Londres. João também escreve regularmente para mídia e para esse blog pessoal em Inglês e Português.